“A língua portuguesa requer estudo contínuo e deve ser bem usada – falada, escrita, lida e interpretada – por todos os seus utentes espalhados pelo mundo. Corrijamo-nos sempre!”
José Carlos
de Almeida
(Pensador & Escritor)
I – USO INADECUADO
DE VERBOS
“Passear” é um verbo intransitivo, pois não requer complemento directo, ou seja, um objecto sobre o qual recai a sua acção. O mesmo se diz do verbo “suar”. Por conseguinte, não devemos dizer “passear ‘o cão’”, tampouco “suar ‘a camisola’”. Infelizmente, os portugueses dizem com frequência “Vou passear o cão”, o que é incorrecto do ponto de vista gramatical, devido à classificação do verbo “passear”, que é intransitivo. Por outro lado, os agentes desportivos e comentadores de desporto, frequentemente, dizem “O jogador deve ‘suar’ a camisola”. Esta frase não faz sentido, visto que a camisola não sua. Quem sua são as pessoas, nomeadamente os jogadores. Corrigindo o erro, devemos dizer “O jogador deve deixar a camisola suada”; “Nós temos jogadores empenhados. Jogadores que deixam a camisola suada”. É o suor do jogador que deixa a camisola húmida ou molhada. Assim, devemos dizer, por exemplo, “Esta/essa/aquela camisola está suada” ou “Esta/essa/aquela camisola está húmida/molhada de suor”.
Os utentes da língua portuguesa devem ter em atenção a classificação dos verbos. Estes podem ser transitivos, intransitivos, bitransitivos, defectivos, impessoais, reflexivos, regulares e irregulares, de modo a usá-los adequadamente. Os dicionários têm informação sobre a classe gramatical da palavra. Portanto, devemos usar as palavras de acordo com as respectivas classes gramaticais.
II – DESVIRTUAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Desaconselho o uso de substantivos como se fossem verbos. Não é aceitável que um comunicador diga “o evoluir da situação” e “o eliminar de projectos…”, quando, devem dizer “a EVOLUÇÃO da situação” e “a ELIMINAÇÃO de projectos…”, respectivamente. infelizmente, os cidadãos dos países africanos de língua oficial portuguesa imitam os intelectuais portugueses, alguns dos quais cometem muitos erros e desvirtuam a nossa língua, usando palavras inadequadas, tais como as que terminam com o sufixo “bilidade”, tais com “empregabilidade”, “transmissibilidade”, que, ao que parece, são consideradas reveladoras de intelectualidade; usando palavras inglesas, quando podem usar vocábulos do português.
Todos os utentes da língua portuguesa devem ter a consciência de que é necessário estudar continuamente a língua portuguesa. É necessário ter em conta a sua actualização. A gramática jamais deve ser ignorada. Incluo os prontuários.
III – OS POVOS E A LÍNGUA PORTUGUESA
De uma maneira geral, os políticos, jornalistas e comentadores portugueses e brasileiros falam melhor o português do que os seus homólogos dos países africanos de língua oficial portuguesa, pois têm um vocabulário mais rico e articulam melhor as palavras. Isto tem a ver com a melhor qualidade do ensino nesses dois países e com os hábitos de leitura dos seus estudantes. Nós, os africanos, lemos muito pouco e produzimos poucos livros. Aliás, no que diz respeito aos livros, dependemos muito de Portugal e Brasil, que têm mais autores e editoras. Além disso, os livros são mais baratos, tendo em conta o custo de vida.
Conquanto Portugal esteja associado à origem da língua portuguesa, os portugueses não são donos do português. O português pertence a todos os seus utentes. O exemplo de que os portugueses não são os “donos do português” é o “Acordo Ortográfico” luso-brasileiro ou brazo-português (não sei onde foi firmado). Todavia, enalteço os portugueses e brasileiros por produzirem livros sobre língua portuguesa, através dos quais corrigem erros linguísticos e pela transmissão de programas de audiovisuais da comunicação social pública sobre matérias de língua portuguesa, como “O Bom Português”, que é um espaço diário de ensino da língua portuguesa, enquadrado na informação matinal da RTP, que acompanho há mais de de 25 anos – desde os meus tempos de estudante em Lisboa.
Em relação à língua portuguesa, em Portugal há influências positivas e negativas. Há comentadores e faladores na comunicação social. Distanciemo-nos dos meros faladores. Na comunicação social angolana, também há comentadores e faladores. Estes cometem muitos erros linguísticos, que mancham a qualidade de jurista e/ou docente universitário.
Termino dizendo que há angolanos e outros africanos originários de países da CPLP que são dignos de louvores pelo bom uso da língua portuguesa na oralidade e na escrita. Felicito-os!
