Durante demasiado tempo, em Angola, a energia foi tratada como mero debate técnico, quando é, na realidade, poder económico, justiça social, competitividade, emprego, saúde pública e afirmação do Estado. Onde há energia há produção, investimento e dignidade. Onde falta, instala-se o atraso.
Por isso, a aposta nacional na energia solar deve ser analisada com seriedade. Os factos mostram que o país deixou de encarar as energias renováveis como promessa distante e passou a tratá-las como política pública concreta. Até ao terceiro trimestre de 2027, prevê-se a instalação de 46 centrais solares, com capacidade de 256 megawatts, beneficiando cerca de 1 milhão de habitantes, evidência de uma estratégia nacional de electrificação descentralizada.
Angola está a expandir parques solares em várias províncias, sobretudo nas regiões historicamente afastadas, invertendo a lógica de concentrar desenvolvimento onde ele já existia.
No Cuango, um parque solar em fase final de execução deverá fornecer energia a cerca de 9.500 residências, reduzindo a dependência de centrais térmicas. No Luau, o parque já em funcionamento, com armazenamento em baterias, assegura fornecimento contínuo, representando uma verdadeira revolução energética, tendo sido oficialmente inaugurado no dia 4 de Maio pelo Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, num momento que simboliza o compromisso político ao mais alto nível com a transição energética e o desenvolvimento do Leste do país.
No Cazombo, um projecto com 40.320 painéis beneficia cerca de 136 mil habitantes, evita 37 mil toneladas de CO2 por ano, poupa 9,7 milhões de litros de combustível e reduz despesas públicas em cerca de 4,5 mil milhões de kwanzas. Em Cafunfo, outro projecto atenderá cerca de 30 mil residências e mais de 100 mil cidadãos, sendo essencial para o desenvolvimento económico local.
No Luena, o parque solar já beneficia centenas de milhares de pessoas, com poupança anual de 19 milhões de litros de gasóleo. Em Saurimo, a central abastece cerca de 171 mil habitantes e evita mais de 68 mil toneladas de CO2 por ano. Já no Bailundo, a central foi concebida para servir mais de 51 mil pessoas.
Perante estes dados, a questão deixou de ser a pertinência da energia solar e passou a ser a sua aceleração. Cada megawatt instalado significa menos importação de combustível, menor pressão sobre as contas públicas e maior capacidade de investimento em sectores sociais.
Nas zonas fora do sistema nacional, a energia solar reduz custos logísticos elevados, sobretudo no Leste, permitindo maior dinamização económica, melhor conservação de alimentos, melhoria das condições escolares e novas oportunidades para a juventude.
Há ainda uma dimensão estratégica: a energia solar promove coesão territorial. Electrificar regiões remotas aproxima o Estado das populações, reduz desigualdades e demonstra que o desenvolvimento não se limita aos grandes centros.
Governos devem ser avaliados por resultados, não por anúncios e, neste caso, os resultados são evidentes: infra-estruturas concluídas, sistemas operacionais, poupanças mensuráveis e milhares de famílias ligadas à rede.
É legítimo exigir mais eficiência, rapidez e melhor gestão. O que já não é possível é negar a evidência.
Angola está a construir uma nova matriz energética: mais limpa, mais acessível, descentralizada e eficiente. Quando os painéis produzem, as casas iluminam-se e a economia local ganha dinamismo, a energia solar deixa de ser promessa e torna-se realidade.
Paulo Quaresma
Especialista em Relações Internacionais.
Fonte:Jornal de Angola
