A sociedade angolana volta a encarar com preocupação os sinais de fragilidade nas instituições responsáveis pela aplicação da justiça. A falta de transparência e a crescente sensação de impunidade colocam em risco a confiança no sistema e reforçam a urgência de reformas estruturais.A crise de credibilidade no sistema judicial angolano ganha novos contornos com as recentes denúncias que abalam os alicerces do Tribunal Supremo, ao descrever uma rede com supostas ligações ao Juiz Presidente do Tribunal Supremo, Joel Leonardo, supostamente envolvida num esquema para garantir a libertação de quatro funcionárias seniores do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), presas por alegada corrupção.Segundo informações, as suspeitas giram em torno da actuação de indivíduos que, supostamente em nome das detidas, tentaram influenciar decisões judiciais através de pagamentos ilícitos.
As funcionárias do SME detidas e implicadas no esquema são: Teodorca Sampaio, ex-responsável pelos Recursos Humanos do SME, detida por alegado envolvimento em esquemas de recrutamento irregular;
Maria Emília Ladeira Pinto Cassule, directora dos Actos Migratórios, acusada de diversos crimes, entre eles associação criminosa, falsificação de documentos e corrupção activa, assim como outras duas oficiais do SME ligadas à emissão fraudulenta de passaportes, detidas no início de 2025.A primeira tentativa de obter a libertação das detidas terá sido feita junto ao juiz Fernando Bumba Kikulo, por meio de um alegado pagamento de 30 milhões de kwanzas. Entretanto, o juiz encontra-se suspenso desde outubro de 2024, após ter sido implicado num caso de suborno relacionado à libertação de um cidadão estrangeiro acusado de homicídio.
Sem sucesso na primeira abordagem, surgiu então o nome de Carlos Salombongo, advogado e primo de Joel Leonardo. Salombongo, frequentemente associado a escândalos judiciais e tráfico de influência, teria feito visitas regulares à cadeia de Viana, conversando directamente com as detidas.
Após sua intervenção, o processo de soltura avançou de forma surpreendentemente rápida, com mandados sendo emitidos antes mesmo da chegada formal dos autos ao tribunal ou do envolvimento do Ministério Público.
Essa movimentação levanta suspeitas de que novos pagamentos possam ter sido efectuados, desta vez com valores possivelmente superiores ao inicialmente citado.O nome de Carlos Salombongo não é estranho à imprensa angolana.
Ele já foi aludido anteriormente em outros casos de favorecimento judicial, incluindo disputas empresariais de alto perfil, onde teria conseguido decisões favoráveis em troca de compensações contratuais.
A justiça angolana enfrenta desafios significativos em casos de corrupção e tráfico de influência, apesar dos esforços para fortalecer a luta contra estes crimes.
A corrupção persistente e a falta de transparência têm dificultado a actuação do sistema judiciário. O país tem ratificado convenções internacionais para combater a corrupção, mas a aplicação das leis e a investigação dos casos ainda são um desafio, considerando que a corrupção reside nas próprias instituições do sistema de Justiça.

