Início Política FUGITIVO DA JUSTIÇA: MANUEL VICENTE VIVE À GRANDE “ABENÇOADO” PELAS AUTORIDADES ANGOLANAS

FUGITIVO DA JUSTIÇA: MANUEL VICENTE VIVE À GRANDE “ABENÇOADO” PELAS AUTORIDADES ANGOLANAS

por Editor

Fugitivo da justiça angolana, Manuel Domingos Vicente, antigo vice‑Presidente da República de Angola, que sumiu do país quando se aproximava o fim da imunidade legal de cinco anos que o protegia, segundo informações postas a circular, está a preparar‑se para deixar definitivamente o Dubai, cidade onde reside desde Outubro de 2019. Alega-se que Manuel Vicente vai dividir a sua estadia entre Paraguai e Singapura.

A escolha destes dois destinos não é casual. Singapura é a cidade‑estado onde Vicente realiza, há vários anos, as suas consultas médicas especializadas, mantendo ali acompanhamento clínico regular. Já o Paraguai tornou‑se um ponto de referência pessoal e patrimonial: o antigo Vice‑Presidente adquiriu, há alguns anos, uma extensa fazenda com várias cabeças de gado, localizada na região do Chaco, zona conhecida por grandes propriedades rurais e baixa densidade populacional.

A imunidade que protegeu Manuel Vicente durante cinco anos terminou em Setembro de 2022 e a de deputado também, com o fim da passada legislatura.
Esperava-se assim que pelos inúmeros crimes praticados contra o Estado e o Povo angolano, Manuel Domingos Vicente, em comunhão com os seus comparsas Baptista Muhungo Sumbe, José Pedro Benge, Fernando Osvaldo dos Santos, entre muitos outros, alguns dos quais continuam no esquema de delapidação do Estado, as autoridades judicias o levassem a Tribunal para que, de facto, justiça fosse feita.

Considerava-se na altura que, com o fim da imunidade, não havia nenhuma razão legal para que os processos relativos a Manuel Vicente não fossem adiante.

Apesar de Manuel Vicente ser considerado como o maior “mafioso” angolano, no âmbito do combate à corrupção, branqueamento de capitais e conexos, nunca foi chamado para depôr e pouco se divulgou sobre a sua real condição judicial.

A imunidade, enquanto ex-vice-Presidente da República, protegeu-o por cinco anos pelo cargo governamental que desempenhou e, como deputado à Assembleia Nacional, também gozou de imunidade, condição que serviu de justificação às autoridades para alegarem que nada se podia fazer até Setembro de 2022.

Contudo, alguns analistas não acreditavam que o processo tivesse “pernas para andar”, pois, mesmo que fosse chamado a depor, seriam sempre criadas situações, adiamentos, entre outros, e tudo podia até “acabar com uma amnistia”.

É assim que ao longo do primeiro mandato do Presidente João Lourenço, em que reiteradamente se propalou o “combate à corrupção”, nunca a Procuradoria-Geral da República (PGR) disse algo acerca do assunto, salvo a alegação sobre uma suposta investigação às actividades de Manuel Vicente.

Na altura, o então Procurador-geral da República, Hélder Pitta Grós, admitiu que a investigação criminal ao ex-vice-Presidente da República, Manuel Vicente, “não avança(va) enquanto tiver direito a imunidade, que termina cinco anos após o fim do mandato em que exerceu o cargo”.

Comentando o assunto e reagindo também às acusações de que Manuel Vicente era protegido ao mais alto nível e que o combate à corrupção tinha moldura selectiva, Pitta Grós disse que “tanto o ex-vice-Presidente como o ex-Presidente estão protegidos por uma lei que concede cinco anos em que não poderão responder pelos actos praticados e, portanto, vamos esperar que os cinco anos decorram para daí podermos tirar ilações se a Justiça está, ou não, a mando do senhor Manuel Vicente e em que termos”, acrescentando que “tudo é possível” após os cinco anos.

O Procurador-geral esclareceu ainda que, até lá, “as investigações podem decorrer normalmente e serem extraídas cópias de tudo o que estiver a ser feito para que não atrapalhe ou crie obstáculos ao funcionamento normal da investigação”.

Contudo, ironizando, disse que a Justiça em Angola é “selectiva porque só age contra aqueles que cometeram actos ilícitos penais, mas actua sobre todos”.

Hélder Pitta Grós revelou então que, dos mais de 1.500 processos a decorrerem os seus trâmites na PGR, estava a ser dada prioridade aos casos de Hélder Vieira Dias “Kopelipa” e Leopoldino do Nascimento “Dino”.

Neste âmbito, há ainda muitos outros nomes que não têm sido mencionados e estarão mesmo esquecidos como o de Paulino Typingue, ex-governador da Huíla, Carlos Alberto Jaime (Calabeto), ex-PCA da ENAMA e ex-secretário de Estado da Agricultura; Armando Manuel, ex-ministro das Finanças e tantos mais.Porém, desde que o Procurador-geral fez o anúncio publicamente, referindo-se à conclusão dos tais processos-crime para que os arguidos fossem presentes ao tribunal, nada mais se disse, parecendo que tudo acabou num impasse, situação que motivou especulações sobre um possível “engavetamento” dos mesmos.

Manuel Vicente foi vice‑Presidente de Angola entre 26 de Setembro de 2012 e 26 de Setembro de 2017, integrando o último ciclo governativo de José Eduardo dos Santos. Antes disso, destacou‑se como presidente do Conselho de Administração da Sonangol, tornando‑se uma das figuras mais influentes do sector petrolífero angolano e um dos principais articuladores entre o Estado, o MPLA e o universo empresarial ligado ao petróleo.

Após o fim do mandato, Vicente manteve presença institucional como deputado do MPLA, mas o contexto político alterou‑se com a chegada de João Lourenço à Presidência.

A nova agenda de governação, alegadamente centrada no combate à corrupção e na responsabilização de antigos dirigentes, coincidiu com a intensificação de processos judiciais internacionais, sobretudo o caso Fizz, em Portugal, no qual Vicente era acusado de corrupção activa. Embora o processo tenha sido transferido para Angola, o ambiente político‑judicial tornou‑se sensível e expôs o ex‑vice‑Presidente a riscos reputacionais e legais.

Foi neste contexto que, em Outubro de 2019, ao ver que se aproximava o fim da imunidade, Manuel Vicente deixou Angola e instalou‑se no Dubai. A versão oficial apontava para motivos de saúde, mas fontes políticas indicam que a decisão foi também motivada por autoproteção.

Desde então, Vicente manteve residência permanente no Dubai, afastado da política activa e com vida discreta. A sua última visita conhecida a Angola ocorreu em Março de 2026, num regresso silencioso, sem agenda pública e sem declarações oficiais. A deslocação foi curta e interpretada como tentativa de reaproximação institucional, ainda num quadro de cautela política.

Com a decisão de abandonar o Dubai, Manuel Vicente inicia agora uma nova fase, repartida entre Singapura, onde mantém acompanhamento médico, e o Paraguai, onde possui interesses agropecuários significativos. É caso para dizer que o homem vive à grande e com a “benção” das autoridades angolanas! (J24 Horas)

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