Há investimentos visíveis e outros menos imediatos, mas igualmente determinantes para o futuro de uma nação. Investir no desporto é um deles.Quando falamos de desporto, não devemos pensar apenas em competições, medalhas ou alta competição. O desporto é, antes de tudo, uma ferramenta de educação, saúde, inclusão social e formação do carácter. E, num país jovem como Angola, esta dimensão assume uma importância ainda maior.Uma criança que aprende futebol, basquetebol, andebol, atletismo ou outra modalidade aprende muito mais do que uma técnica desportiva.
Aprende a respeitar regras, trabalhar em equipa, aceitar vitórias e derrotas, cumprir horários, assumir responsabilidades e compreender que o sucesso raramente acontece sem esforço. É aí que começa a disciplina e uma relação diferente com a vida.O desporto ocupa o tempo de forma saudável, cria objectivos e proporciona convivência e aprendizagem. Num contexto em que muitos jovens podem estar expostos a riscos como o consumo de drogas, a violência, a delinquência e outras formas de criminalidade, oferecer alternativas concretas é uma das formas mais inteligentes de prevenção. Não basta dizer aos jovens para não entrarem no caminho errado: é preciso oferecer-lhes caminhos.
Um campo de futebol, um pavilhão, uma pista de atletismo, uma piscina, uma academia, um clube de bairro ou uma associação juvenil podem representar oportunidades capazes de mudar vidas.Por isso, mais investimento no desporto não significa apenas entretenimento. Significa defender uma política de prevenção e desenvolvimento humano. O exercício físico contribui para a prevenção de diversas doenças, combate o sedentarismo e vários factores de risco associados às doenças não transmissíveis. Os benefícios ultrapassam a dimensão física, contribuindo para o bem-estar psicológico, a socialização e hábitos saudáveis.
O desporto deve começar cedo. Não podemos esperar uma população adulta saudável se não criarmos, desde a infância e adolescência, condições para adquirir esses hábitos naturalmente. Um jovem que encontra no desporto uma paixão pode descobrir, ao mesmo tempo, uma profissão, uma vocação ou simplesmente um espaço seguro onde crescer.Angola tem aqui uma enorme oportunidade. Precisamos de multiplicar associações, clubes, academias e fundações dedicadas ao futebol e às demais modalidades, envolvendo mais empresas, instituições sociais, igrejas, comunidades e cidadãos na criação de projectos desportivos sustentáveis. Não devemos esperar que tudo venha do Estado. É fundamental a definição de políticas, construção de infra-estruturas e formação, mas a sociedade também deve assumir a sua responsabilidade.
Uma fundação que cria uma escola de futebol pode fazer prevenção social; uma empresa que apoia uma equipa juvenil investe na comunidade; uma associação que organiza torneios escolares pode descobrir talentos; e um antigo jogador que transmite a sua experiência forma mais do que atletas.O futebol, pela sua popularidade, pode desempenhar papel relevante. Mas não devemos limitar a nossa ambição a esta modalidade. Angola tem talento para basquetebol, andebol, atletismo, boxe, judo, natação, ciclismo, voleibol e outras modalidades. Cada modalidade pode abrir uma porta diferente. Quanto mais portas abrirmos, mais possibilidades teremos de encontrar talentos, formar campeões e, sobretudo, formar cidadãos.Precisamos levar o desporto para mais perto das comunidades.
Não basta concentrar as melhores condições nas grandes cidades. É necessário criar oportunidades nas províncias, municípios e bairros. Um país continental como Angola precisa de uma rede que permita descobrir talentos independentemente do local onde nasceram.É assim que se constrói uma verdadeira cultura desportiva: praticar exercício como hábito; os pais incentivarem os filhos; as escolas terem um papel activo; as comunidades disporem de espaços adequados; e as empresas compreenderem o valor social do investimento no desporto.O desenvolvimento do desporto deve ser parte integrante do desenvolvimento sustentável de Angola.
Uma nação desenvolvida não é apenas a que produz mais ou cresce economicamente. É também aquela que possui uma população saudável, activa e educada.Investir no desporto é investir nessa população. É reduzir riscos para a saúde, promover hábitos saudáveis, combater a ociosidade, criar oportunidades, ensinar disciplina, descobrir talentos, criar empregos e projectar Angola através dos seus atletas.Os grandes atletas resultam de talento, oportunidades, disciplina, infra-estruturas, treinadores, famílias e instituições. Por detrás de cada campeão existe quase sempre uma história de alguém que, em determinado momento, decidiu apostar naquele jovem. É essa aposta que precisamos de multiplicar.Precisamos de mais campos, clubes, associações, fundações, campeonatos juvenis, torneios escolares, formação de treinadores e programas comunitários.
Precisamos de transformar o desporto numa verdadeira política de juventude e saúde pública.Cada jovem no campo pode ser um jovem que não está na rua. Cada hora de treino pode ser dedicada à disciplina, aprendizagem e construção de um projecto de vida. Cada equipa ensina cooperação; cada competição, responsabilidade; cada derrota, a recomeçar; e cada vitória, que o mérito é fruto de trabalho.Angola precisa desta cultura. Uma cultura de esforço, disciplina, superação e esperança. O futuro da nossa juventude não pode ser construído apenas através de discursos. Precisa de oportunidades concretas.
E o desporto é uma das ferramentas mais poderosas que temos ao nosso alcance para criar essas oportunidades.Por isso, quando falamos em desenvolver o desporto em Angola, não devemos perguntar apenas quantas medalhas queremos conquistar. Devemos perguntar quantas crianças queremos tirar do sedentarismo, quantos jovens queremos afastar das drogas e da criminalidade, quantas comunidades queremos mobilizar, quantos talentos queremos descobrir e quantos cidadãos queremos ajudar a formar.Essa é a verdadeira dimensão do desporto. Não se trata apenas de ganhar jogos. Trata-se de ganhar pessoas para uma vida mais saudável, disciplinada e digna. E é por isso que investir no desporto é, também, investir no futuro de Angola.Paulo Quaresma.Especialista em Relações Internacionais
