Início Sociedade Desde a fundação da igreja os “tocoístas nunca viveram em paz”

Desde a fundação da igreja os “tocoístas nunca viveram em paz”

por Redação

O secretário – geral da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo “Tocoístas, 12 Mais Velhos”, Nuno António Simão, disse na cidade do Uíge, durante uma palestra, que Simão Gonçalves Toco ficou onze anos exilado no sul de Angola, pela intenção do colono português abafar o movimento daquela congregação religiosa

Domingos Kinguari

Nuno António Simão assegurou durante a palestra que Simão Toco foi deportado para Açores, Portugal, «mas depois da queda de Oliveira Salazar regressa a Angola em 1974. Após a independência nacional, o governo do MPLA aplicou ao nosso líder quinze cadeias sem qualquer julgamento», recorda.

Assim sendo, disse, «o dia 22 de Outubro, para a história da igreja, tem um grande significado para os tocoistas, porque foi neste dia que o dirigente Simão Gonçalves Toco, ou o professor, foi preso em Leopoldiville, actual Kinshasa, com os seus fiéis, tendo sido encarcerados nas cadeias de Filtra e de Ndoló. As prisões aconteceram no dia 22 de Outubro de 1960 e foi o marco, ou seja, o dia em que o dirigente foi preso. Comemoramos o dia 22 de Outubro, porque foi o dia em que o nosso dirigente foi detido naquele país», disse.

Durante a audiência, por parte dos mais velhos, e dos jovens, assinalou também que «foram presas algumas pessoas que estavam com o dirigente; depois do povo ouvir que ele estava preso, milhares de ‘bazombos’ foram-se entregar nas cadeias do colono belga. As cadeias ficaram super – abarrotadas. As prisões foram efectuadas sem nenhuma culpa formada. A ideia do governo belga era apenas a de repatriar o dirigente Simão Gonçalves Toco e a sua família para Angola, com o objectivo de extinguirem a nova acção evangelizadora que estava em curso, que era a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo», enfatizou.    

O secretário-geral da igreja referiu que não houve motivo aparente para a prisão do dirigente dos tocoístas e dos seus fiéis; «não havia nenhuma acusação, mas a expulsão do dirigente era a vontade de Deus, porque a igreja naquela altura não tinha meios como deveria fazer chegar a mensagem do Senhor em toda a parte do mundo. A prisão foi a via que Deus encontrou para passar a mensagem dos tocoistas, tal como aconteceu na era colonial e assim também após a independência nacional», garantiu.

Continuando, esclareceu que «um dos motivos para a prisão dos tocoistas foi porque estavam a lançar a mensagem de Deus no território do Congo Belga, esta foi uma das razões, mas também é para dizer que o professor Simão Toco pertencia à igreja Baptista, logo após a descida do Espírito Santo as prisões começaram. Os responsáveis da igreja Baptista foram queixar-se às autoridades belgas e foi assim que ele foi preso no dia 22 de Outubro de 1960», informou.

Nuno António Simão referiu ainda que, Simão Toco, sabendo que iria ser repatriado para Angola, chamou um dos seus anciãos e conselheiro, «o mais velho Mavembo, para o orientar que aqueles que aceitariam morrer em nome de Cristo deveriam estar disponíveis. Orientou o mais velho Mavembo a fazer o registo de doze pessoas que teriam uma missão especifica. Ficaram em jejum durante quinze dias e passavam dias e noites a orar para que a intenção do governo belga não pudesse ter qualquer efeito. Depois disso saiu a sentença, Simão Toco e os seus fiéis seriam todos repatriados para Angola», lembrou.

Paiva Domingos da Silva tentou matar Simão Toco e não conseguiu 

Ao entrar em Angola, na fronteira do Noqui, sob a acusação das autoridades belgas aos seus colegas portugueses de que os tocoístas eram preguiçosos e não sabiam trabalhar, «fomos recebidos pelo governo português na fronteira do Noqui e fomos espalhados por várias localidades. Um grupo de oitenta e dois fiéis foram para o colonato ‘Vale do Loge’ que era de difícil acesso, uma mata densa onde foram colocados para que pudessem ser testados; outro grupo foi colocado em Luanda», explicou.

Simão Toco, disse, ficou poucos meses no Vale do Loge e foi exilado para o sul de Angola, porque a intenção do colono era o de exterminar o movimento tocoísta, «porque eles desconfiavam que era uma organização religiosa que estava em contacto com a UPA. Para além da mensagem religiosa que passávamos, a PIDE dizia que Simão Toco apregoava a independência das colónias portuguesas, por essa razão era exilado de território em território. Ficou onze anos exilado em algumas localidades como a Chibia, Namibe, Menongue e tantas outras zonas, com o objectivo de abafar o movimento tocoísta que estava a emergir», pontualizou.

O secretário – geral tocoísta explanou que após a independência nacional as prisões continuaram; «infelizmente, muitos pensaram que logo após o 11 de Novembro de 1975 a história seria diferente, mas no dia 20 de Junho de 1977 o dirigente foi detido novamente por ordem do comandante da ODP (Organização de Defesa Popular), Paiva Domingos da Silva; ficava três a quatro dias e saía e, posteriormente, passou po três cadeias, começando na cadeia do comité 4 de Fevereiro, local onde hoje está o marco histórico, foi depois encaminhado para a cadeia da Segurança do Estado na Terra Nova, onde hoje está situado o Comando provincial da Polícia de Luanda, e depois foi para a Comarca de Luanda», descreveu.

O responsável enfatizou que, nessas prisões, não era julgado; era apenas humilhado e castigado. «Não tinha soltura, a vida do dirigente era de cadeia e casa, ou seja, passou mais tempo na prisão do que a cuidar da sua família e da vida da igreja. A última prisão do líder foi no dia 2 de Janeiro de 1979, antes da morte de Agostinho Neto. Ele foi detido quando confraternizava com as crianças. Depois de ser solto, alertou que ‘as prisões de Cristo’ terminaram», recorda com alguma tristeza.

Recordou que «no dia 20 de Junho de 1977, na cadeia do comité 4 de Fevereiro, Simão Toco foi esquartejado em três partes e o seu corpo feito em pedaços com a intenção de eliminá-lo. Como o colono português não o conseguiu, o governo da então República Popular de Angola tinha que cumprir para que pudesse terminar com a missão de Simão Toco em Angola. Infelizmente como era homem de Deus conseguiu vencer e saiu vivo da cadeia da ODP», realçou.

Quis o destino que Simão Gonçalves Toco, depois da sua última prisão efectuada pelo regime do MPLA/partido do Trabalho, no dia 2 de Janeiro de 1979, realizou várias actividades da igreja, quer em Luanda como no interior, mas veio a falecer no 1 de Janeiro de 1980, e foi sepultado em Ntaya, Maquela Zombo.

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