Início Política Moxico em vias de desertificação: Manutenção de Muandumba como governador será prejudicial para o MPLA nas eleições

Moxico em vias de desertificação: Manutenção de Muandumba como governador será prejudicial para o MPLA nas eleições

por Redação

O desmatamento desenfreado para obtenção de madeira está a preocupar as populações de diversas províncias do país, que temem pela desertificação do território e pela crescente erosão de terras que estão a causar o surgimento de enormes ravinas que, em algumas localidades, estão a “engolir” comunidades inteiras. Uma dessas províncias, que está a ser considerada como líder na exploração desregrada de madeira é a do Moxico

Mwanza Mukondolo

Em meio ao aumento das contestações contra o governador da província do Moxico, Gonçalves Muandumba, que tem sido acusado pelas populações locais  de “nada fazer pela melhoria das condições de vida e bem-estar dos cidadãos” naquela circunscrição do território nacional, um outro assunto, bastante preocupante, tem sido levantado e as culpas imputadas ao chefe do Executivo local.

Trata-se da exploração desregrada de madeira que está a devastar as florestas e a degradar todo o ecossistema daquele território.

As acusações salientam que as estradas estão totalmente degradadas, pelo que os habitantes têm enormes as dificuldades para se deslocarem de um município a outro dentro da sua província, havendo inclusive populações que estão isoladas e a passar por todo o tipo de privações, enquanto as riquezas locais estão a ser exploradas com muita avidez, sobretudo a madeira.

A continuar assim, alegam os populares, “daqui a alguns meses o Moxico vai-se tornar um enorme deserto. Essas riquezas exploradas beneficiam os governantes, que recebem a ‘micha’, mas a população não tem tido nenhum benefício a não ser o sofrimento que aumenta a cada dia”, acusam.

De facto, o desmatamento para obtenção de madeira, tem sido um problema muito sério e que já fora alvo de restrições ainda no regime de José Eduardo dos Santos. Porém, depois de 2017, com a ascensão de João Lourenço ao poder, a situação ganhou contornos bastante alarmantes.

Diversos membros das elites no poder, entre governantes e altas patentes das forças de defesa e segurança, têm sido apontados como os verdadeiros mentores do “genocídio florestal” do país, escudando-se detrás de cidadãos estrangeiros, com destaque para chineses, cujas empresas não respeitam nada e ninguém, tudo em busca de lucros cada vez maiores.

A província do Moxico, neste quesito, é a que mais tem sofrido, a par da do Cuando Cubango.

Apesar de Gonçalves Muanduma ter defendido publicamente num encontro com responsáveis de empresas de exploração de madeira, uma maior gestão da fauna e flora, e condenou o abate indiscriminado das espécies existentes, os cidadãos consideram que as declarações do governador foram apenas para “enganar a opinião pública dando a entender que está preocupado com a situação, quando, na realidade, ele é um dos principais beneficiários, usando ‘testas de ferro’ que passam por proprietários de algumas das ditas empresas”.

Em sua opinião, há graves anomalias no exercício desta actividade que ferem o princípio das leis que regulam a exploração de madeira no país e “o governador sabe muito bem disso, mas deixa andar”.

No mesmo sentido, o arcebispo do Moxico, Dom Tirso de Jesus Blanco, denunciou recentemente que há realmente uma exploração indiscriminada de madeira naquela província do leste do país, realçando que, nos dias que correm, a situação agravou-se consideravelmente, necessitando da intervenção urgente dos organismos do Estado a nível central para se inverter o quadro actual.

“Visitei, recentemente, as localidades de Cachicoque e Chicala, aqui mesmo próximo da capital, sede da província, há 35 quilômetros, e as estradas estão totalmente degradadas pelos camiões de madeira que não dão nenhum beneficio às populações e com o agravante de danificar as estradas”, denunciou o prelado católico, que tem sido bastante interventivo em relação às questões sociais das populações.

De acordo com Dom Tirso Blanco, embora o comboio passe nessas localidades, os munícipes não conseguem apanhá-lo, porque este meio de transporte, que deveria facilitar a vida dos cidadãos, não pára onde devia por falta de paragens.

“Por este facto, as populações de Cachicoque e Chicala ficam isoladas por causa da falta de estradas. O mesmo se passa com as populações do Alto Zambeze onde, recentemente, tivemos a oportunidade de mandar lá os missionários para ver em que condições as populações vivem, em que condições se encontram as estradas e a quantidade de madeira que é explorada na nossa província”, revelou.

Enquanto isso, especialistas ambientais alertam que a exploração desordenada continua porque “nem todas as empresas cumprem com as práticas de corte selectivo. Elas entram para a mata e cortam tudo o que é árvore”, lamentam.

“Já estamos a ver algumas zonas onde não há vegetação. Fazem o corte e deixam a céu aberto, não há um retorno da empresa à natureza que lhes deu aqueles recursos. É por isso que estamos a verificar em alguns locais o despovoamento de algumas espécies faunísticas”.

“Tudo isso terá implicações para as gerações vindouras”, lembram, acrescentando que “a exploração de recursos florestais é considerada um instrumento útil para os lucros de hoje, mas as comunidades locais não são respeitadas, nem a própria natureza”.

Para os populares, a situação é deveras triste e bastante desoladora e não se vislumbram melhorias, porque o executivo liderado por Muandumba não tem competência para encontrar soluções para que se vá minimizando a situação.

Num momento em que se aproximam as eleições gerais, os eleitores da província, em geral, consideram que a manutenção de Gonçalves Muandumba no cargo é um “tiro no próprio pé” do partido no poder, pois, o seu desempenho deixa mal vista a governação do Presidente João Lourenço e põe em dúvida a sua capacidade de liderança.

Em busca do contraditório, fonte próxima ao governador do Moxico disse apenas que os factos aqui expostos “são falsos” e “podem publicar o que quiserem”, deixando entender que a “reacção” virá depois.  

O assunto não se esgota aqui. Voltaremos!

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