Início Política Manuel Vicente continua à “grande e à francesa” com a “bênção” de João Lourenço

Manuel Vicente continua à “grande e à francesa” com a “bênção” de João Lourenço

por Redação

Análises feitas aos quatro anos de governação de João Lourenço, apontam, entre muitas outras lacunas, a descarada preservação de indivíduos, por afinidades e/ou fidelidade, a pontos de ignorar investigações internacionais, até mesmo de países com quem tem boas relações

A este propósito, aludem os analistas, o maior exemplo é o de Manuel Vicente, ex-vice-Presidente de Angola e antigo PCA da Sonangol, cujo processo-crime em Portugal foi separado do resto da “operação Fizz” — relacionado com alegados pagamentos de Vicente ao procurador Orlando Figueira como contrapartida pelo arquivamento de inquéritos — e enviado para Angola.

“Desde que o processo chegou a Angola não houve nenhuma consequência. Aliás, pelo contrário, Manuel Vicente continua tão folgado que está de ‘pedra e cal’ no parlamento como deputado e é apontado como um dos conselheiros principais de João Lourenço, para as questões do petróleo e gás”, refere-se.

A maioria dos processos mediáticos, como o de Manuel Vicente acabaram por ficar em “banho-maria”.

Depois de receber o processo de Manuel Vicente, a Justiça angolana, pela voz do procurador-geral Hélder Pitta Grós, admitiu avançar quando a imunidade do antigo “vice” de José Eduardo dos Santos terminasse, isto é, em 2022.

No entanto, a imunidade não é factor de impedimento para as autoridades angolanas de ouvirem Manuel Vicente no âmbito dos crimes imputados por Portugal, assim como de outros casos em que surge associado o nome do antigo vice-Presidente angolano, como o saque de milhões de dólares da Sonangol e do sector petrolífero angolano em geral, o caso AAA, em que Manuel Vicente é apontado como parceiro do empresário Carlos São Vicente, genro de Agostinho Neto, acusado de peculato e de crime de branqueamento de capitais de forma continuada num esquema de seguros que terá lesado o Estado angolano em mais de mil milhões de dólares.

Ao ser questionada sobre a possibilidade de Manuel Vicente começar a ser investigado ou julgado no próximo ano, a PGR angolanamas não respondeu em tempo útil. Analistas admitem que existe a possibilidade de o antigo “vice” ser julgado, dependendo da “conjuntura política do momento”, mas consideram esse cenário pouco provável.

“A promessa de o processo de Manuel Vicente avançar fez parte de uma estratégia política para mostrar ao eleitorado que o governo estava a combater a corrupção. Depois das eleições (que o MPLA está a preparar a ‘maquinaria’ para voltar a ganhar), o governo não vai sentir a pressão de tentar provar que está contra a corrupção”, afirmam.

Acresce-se, entretanto, que é conhecida a relação de grande proximidade entre Manuel Vicente e João Lourenço, um dos motivos apresentados pelas  fontes é de que não acreditam que o processo contra Manuel Vicente avance, e que vai ao encontro da tese que tem sido veiculada por alguns especialistas e também pela oposição — que acusam João Lourenço e a Justiça angolana de serem selectivos no combate à corrupção.

“Angola praticamente só está a julgar a governação do Presidente José Eduardo dos Santos. A ideia que passa é que o combate à corrupção é apenas contra ex-ministros e não contra aqueles que estão no activo. E isso começa a criar uma certa descrença nas pessoas”.

Por exemplo, no governo de João Lourenço há dois casos que têm sido notícia sem que nada aconteça. Um deles é o de Edeltrudes Costa, chefe do gabinete do Presidente angolano, cujo nome tem sido associado a casos de corrupção e de desvio de dinheiro do Estado através da assinatura de contratos públicos, tendo, segundo a TVI portuguesa, parte do dinheiro sido desviado através de uma sucursal do então Banco Espírito Santo (BES) na zona franca da Madeira.

O outro caso, é o de João Baptista Borges, ministro da Energia e Águas, suspeito de branqueamento de capitais num caso que levou, conforme noticiou a TVI em Janeiro deste ano, à abertura de um inquérito, em Portugal, ao sobrinho e filho do ministro.

Tudo, porque terão usado uma empresa com sede em Portugal para desviar dinheiro de contratos da área da energia. João Baptista Borges, ainda de acordo com a estação televisiva portuguesa, também terá aberto uma empresa offshore com um dos filhos, estando já em funções no governo angolano, tendo dado como morada um apartamento em Lisboa.

Questionada a PGR portuguesa sobre qual o actual estado do inquérito relativo a Edeldtrudes Costa e a João Baptista Borges, não se obteve resposta. Em Angola, ambos continuam em funções no governo de João Lourenço e não há informação das autoridades angolanas quanto a qualquer investigação em curso.

Por outro lado, no final do passado mês de Maio, uma investigação de corrupção teve grande projecção em Angola, levando à detenção, entre outras figuras, do major Pedro Lussaty, responsável pelas finanças da banda musical da Presidência, cuja casa foi alvo de buscas por parte das autoridades angolanas, tendo sido encontradas malas e caixotes com dez milhões de dólares, 700 mil euros e 800 milhões de kwanzas, tudo em notas — dinheiro que estaria prestes a ser levado para fora de Angola.

A operação Caranguejo, conforme ficou conhecida, na sequência da investigação de crimes de corrupção, peculato, retenção de moeda e associação criminosa, foram detidos, posteriormente, mais 20 oficiais da Casa de Segurança do Presidente angolano no Cuando Cubango, entre eles o presidente do Cuando Cubango Futebol Clube, o capitão Atanásio Lucas José.

Logo após a operação Caranguejo rebentar, João Lourenço exonerou sete oficiais da sua Casa de Segurança, inclusive o ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança do Presidente, Pedro Sebastião, embora o Presidente angolano não tenha responsabilizado Pedro Sebastião pelo caso, nem haja qualquer investigação em curso nesse sentido.

“Fica-se com a ideia de que este caso foi para criar a sensação de que o combate à corrupção não parou e que até estão a combater pessoas da estrutura presidencial. Mas até ao momento só foram apanhadas patentes inferiores”, salienta-se.

Resumindo, a “Operação Caranguejo” não passa de uma encenação calculada para satisfazer exigências externas, descrita pelas fontes como o “corolário” de um plano concebido e montado pelo Serviço de Informação e Segurança do Estado (SINSE), devidamente aprovado pelo Presidente João Lourenço, para demonstrar à opinião pública nacional e internacional a vitalidade das suas políticas, principalmente o combate à corrupção! (Com agências)

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