Início Política Mais uma “charada de mau gosto”: PGR liberta Abel Cosme com explicações que a sociedade não engoliu

Mais uma “charada de mau gosto”: PGR liberta Abel Cosme com explicações que a sociedade não engoliu

por Redação

O ex-PCA da TCUL e antigo director da Unicargas, Abel António Cosme, extraditado há dias de Portugal para Angola acaba por ser posto em liberdade pela PGR, depois de ter sido ouvido na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP)

Santos Pereira

A notícia deixou estupefacta a sociedade e acirrou as dúvidas quanto à seriedade dos procedimentos da justiça em Angola, principalmente no concernente a casos ligados ao processo de combate à corrupção e conexos.

“Uma autêntica charada de mau gosto”, é a opinião de diversas individualidades da sociedade civil angolana.

O ex- presidente do Conselho de Administração da TCUL e director-geral da Unicargas, Abel António Cosme, extraditado por Portugal para Angola, seis dias depois já está em liberdade.

Abel Cosme foi libertado depois de ter sido ouvido pela Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal “DNIAP”, tendo provado que não fugiu do país, mas apenas ausentou-se para tratamento médico.

A explicação apresentada pela PGR não convence a sociedade, considerando que o indivíduo foi detido dois anos depois em Portugal com a participação da Interpol a pedido das autoridades angolanas, “por fugir do país” quando foi arrolado ao processo do “caso CNC” em que a figura e réu principal foi o ex-ministro dos Transportes, Augusto da Silva Tomás.

Foi largamente noticiado na altura que “com a intervenção da Interpol, as autoridades portuguesas prenderam o fugitivo da justiça angolana, Abel António Cosme, antigo PCA da empresa de Transportes Colectivos Urbanos de Luanda (TCUL), que deverá ser presente a um juiz em Portugal, local da detenção, e posteriormente, extraditado para Angola, país de origem e onde cometeu os crimes”.

A este propósito “o Governo angolano por via do Ministério dos Transportes, recorreu a anúncio publicado no Jornal de Angola a 5 de Janeiro de 2019, para tentar encontrar o presidente do Conselho de Administração da empresa de Transportes Colectivos Urbanos de Luanda (TCUL), Abel António Cosme, que se encontrava desaparecido”.

O ex-PCA da TCUL já não era visto nas instalações da empresa há mais de três meses, ou seja, desde que,  a 15 de Outubro de 2018, foi constituído arguido pela Procuradoria-geral da República (PGR) num processo relativo ao desvio de fundos do Conselho Nacional de Carregadores (CNC), organismo tutelado pelo Ministério dos Transportes.

O seu nome foi proferido no despacho de pronúncia e na acusação do Ministério Público (MP), tendo sido referenciado pelo tribunal durante as sessões de discussão e julgamento.

Segundo a acusação, em Agosto de 2009, um mês antes da constituição da empresa AfriTáxis, o Conselho Nacional de Carregadores e a Unicargas, representados pelos fugitivos Agostinho Itembo e Abel Cosme, transferiram de forma ilícita para esta empresa mais de três milhões de dólares e cerca de 247 milhões de kwanzas, com a pretensão de serem sócios deste empresa, embora isso nunca tenha acontecido.

Com esses valores, a empresa AfriTáxis adquiriu cerca de 300 viaturas, tendo, no entanto, o réu Augusto Tomás orientado no sentido de a gestão de 150 viaturas ficarem a cargo do CNC e da Unicargas para serem utilizadas nas províncias de Benguela, Huíla e Cabinda.

Por isso a Rend-Angola, da qual eram sócios Abel António Cosme, então PCA da Unicargas, e Agostinho Itembo, antigo director-geral do Conselho Nacional de Carregadores, seriam as representantes da AfriTáxis nas províncias de Benguela, Huíla e Cabinda, onde fizeram a entrega de 50 viaturas cada.

Após a entrega dessas viaturas à Rend-Angola, referiu acusação, esta não deu qualquer contra-partida ao Estado, que acabou por ficar prejudicado.

No entanto, o Ministério Público alegou que o investimento do CNC na empresa AfriTáxis, foi um artifício fraudulento utilizado pelos réus Augusto da Silva Tomás, figura central do julgamento, Isabel Bragança, Rui Manuel Moita, Manuel António Paulo e Eurico Alexandre da Silva, bem como os fugitivos Abel António Cosme e Agostinho Itembo, para desviarem dinheiro do Estado e financiassem os seus próprios negócios ou de terceiros.

«Tal como foi o artifício fraudulento de outras participações sociais pelo CNC, os réus e os dois fugitivos causaram ao Estado Angolano um prejuízo de mais de 27 milhões de dólares e 255 milhões de kwanzas», afirmou-se na pronúncia.

Recorde-se que Abel António Cosme liderou o conselho de administração da TCUL desde Novembro de 2017, tendo substituído no cargo Freitas Neto e a sua ausência foi tornada pública em Janeiro de 2019, quando o gabinete dos Recursos Humanos do Ministério dos Transportes solicitou, através de uma publicação no Jornal de Angola, a sua comparência no prazo de oito dias.

Entretanto, o antigo director-geral do Conselho Nacional de Carregadores (CNC), Agostinho Itembo, sócio de Abel Cosme, é outro foragido da justiça angolana no âmbito do mesmo “caso CNC”, encontrando-se ainda em parte incerta no exterior do país.

Assim sendo, levantam-se algumas questões: sendo um gestor público e estava com problemas de saúde, porque razão se ausentou “como um gatuno na calada da noite”, não informou à própria empresa que dirigia e o seu ministério? Sabendo como sabia que estava arrolado a um processo – crime porque não informou as autoridades e assim fosse oficialmente autorizado a sair em tratamento médico? Porque houve tanto problema depois da sua prisão e se levantou inclusive a questão da dupla nacionalidade? Os crimes de que é acusado foram ou não cometidos, já que foi dado como culpado no julgamento do “caso CNC”? Que interesses obscuros estão a ser camuflados com a sua libertação?

A PGR, uma vez mais deve respostas plausíveis, verdadeiras, aos angolanos. Chega de ofender a inteligência dos cidadãos e fazê-los de bobos!   

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