Início Política A odisseia dos dinheiros de Angola – Revelações do “grande esquema” que desgraçou Angola

A odisseia dos dinheiros de Angola – Revelações do “grande esquema” que desgraçou Angola

por Redação

Na sequência da matéria sobre uma investigação levada a cabo pela Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), um consórcio de jornalismo constituído por centros de investigação em vários continentes, que revela todos estratagemas engendrados por uma elite angolana de “gatunos”para tirar dinheiro de Angola e camuflá-lo no estrangeiro. Para transferir as suas fortunas para a União Europeia, criaram mesmo uma rede privada de bancos.

Mais de uma dúzia de influentes quadros angolanos e elementos das suas famílias tiraram partido dessa rede. Por exemplo, empresas alegadamente associadas a Isabel dos Santos, a filha do ex-Presidente, receberam milhões.
Muita da riqueza deste grupo de elite surgiu ligada à Sonangol, a empresa estatal de petróleo e a fonte de pelo menos 75 por cento das receitas públicas do país. “Durante a gestão de Vicente, a Sonangol passou de uma companhia essencialmente centrada no negócio petrolífero para uma constelação de mais de 70 “joint ventures” e subsidiárias a operar nos quatro continentes, um verdadeiro labirinto de interesses baseados no petróleo mas que se expandiram muito para lá deste setor”, disse Ricardo Soares de Oliveira, professor de Política Africana na Universidade de Oxford e especialista no setor bancário angolano.
Dinheiro foi também desviado de outras fontes públicas, incluindo alegadamente mais de 150 milhões de dólares em empréstimos do banco central de Angola que nunca foram pagos.
O circuito do dinheiro começou em Angola, onde as ligações políticas permitiram às elites escapar ao escrutínio dos reguladores. O grupo exerceu controlo sobre alguns dos maiores bancos do país, incluindo o Banco Africano de Investimentos (BAI), o Banco de Negócios Internacional (BNI) e o Banco Privado Atlântico (BPA).
As elites angolanas estenderam depois a rede ao criar sucursais do BNI e BPA no estrangeiro, tornando-se simultaneamente acionistas e clientes destes bancos. Isto permitiu-lhes transferir vastas somas de dinheiro através de uma rede privada de bancos com reduzido escrutínio.
As sucursais estrangeiras – duas em Portugal e uma em Cabo Verde – não fizeram controlos básicos de branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo nem aplicaram procedimentos de diligência devida a clientes apontados como suspeitos por reguladores internacionais.
Os bancos tinham aliás poucos clientes externos à rede, na maior parte das vezes colhendo poucas receitas ou até registando prejuízos, o que sugere que a rentabilidade não era o seu principal propósito.
Vários detalhes sobre a rede surgem nos dois relatórios de auditoria do Banco de Portugal. Mas para deslindar o vasto circuito de dinheiro estabelecido entre Angola e a Europa, o OCCRP analisou também correspondência interna, documentos confidenciais de investigadores que não foram incluídos nos relatórios de auditoria e fontes públicas, incluindo dados comerciais sobre empresas. O OCCRP não teve acesso às listas de clientes dos bancos, pelo que não foi possível determinar as quantias exatas enviadas ou recebidas por indivíduos específicos.
Mas o facto de as elites angolanas terem conseguido movimentar centenas de milhões através desta rede – que continua a operar, apesar dos relatórios de auditoria muito críticos em Portugal – levanta sérias questões sobre a capacidade, ou vontade, de Portugal e da União Europeia travarem fluxos financeiros ilegais. O OCCRP contactou o Banco Central Europeu, mas não obteve resposta. (Continua)

Poderá também achar interessante