Início Mundo Novo golpe de Estado no Sudão pode levar o país “a um retrocesso muito significativo”

Novo golpe de Estado no Sudão pode levar o país “a um retrocesso muito significativo”

por Redação

Novo “golpe de Estado” no Sudão pode “levar a um retrocesso muito significativo de alguns avanços no processo de transição”, dois anos depois da queda do regime de três décadas de Omar Al Bashir. A investigadora Daniela Nascimento não exclui a possibilidade de um “novo fecho do país a dinâmicas de liberdade e transição democrática” com mais um regime militar repressivo

Esta segunda-feira (25), as Forças Armadas do Sudão prenderam várias autoridades civis, incluindo o primeiro-ministro, e falaram em “golpe de Estado”. Nos últimos dois anos, o Sudão tem tido uma transição política precária, marcada por lutas de poder desde a queda de Omar Al Bashir em Abril de 2019.  Desde Agosto, o país está sob o comando de uma administração cívico-militar, responsável por conduzir o país para uma transição democrática, sob controlo civil, para organizar no fim de 2023 as primeiras eleições livres em três décadas.

Abdel-Fattah Burhan anunciaou a dissolução do Conselho Soberano que governava o país desde a queda de Omar al-Bashir. Militares mantém o primeiro-ministro Abdullah Hamdok e autoridades do Governo presos em lugar desconhecido.

O principal general do Sudão declarou o estado de emergência esta segunda-feira (25.10), horas após as suas forças terem prendido o primeiro-ministro em exercício e outros altos funcionários do governo. Num discurso televisivo, o General Abdel-Fattah Burhan anunciou que estava a dissolver o Conselho Soberano governante do país, bem como o governo liderado pelo primeiro-ministro Abdalla Hamdok.

O militar disse que as disputas entre as facções políticas levaram os militares a intervir. Burhan afirmou que um novo Governo tecnocrata conduzirá o país a eleições.

O primeiro-ministro do Sudão, Abdullah Hamdok, está em prisão domiciliária e outros membros do governo também estão detidos por forças de segurança em Cartum, segundo a emissora Al-Hadath e o portal de notícias Sudan Tribune publicam esta segunda-feira.

Daniela Nascimento, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, avisa que um novo “golpe de Estado” no Sudão abre a possibilidade de “um novo fecho do país a dinámicas de liberdade e transição democrática”.

“Eu acho que a consequência mais imediata é levar a um retrocesso muito significativo daqueles que foram – poucos, mas alguns – os avanços no processo de transição”, explica a também professora auxiliar no Núcleo de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

“Conhecendo a história do Sudão, que é marcada por muitos golpes de Estado – de natureza muito diversa, mas em que a dimensão militar esteve sempre muito presente – há uma consequência que não pode ser descurada que é a de se voltar a um regime militar no Sudão de natureza bastante mais repressiva, de maior controlo.

Inevitavelmente, isso poderá ter reflexos do ponto de vista do que era a abertura do espaço para as liberdades civis e política, obviamente aliadas a uma fragilidade económica muito estrutural. Inevitavelmente poderá haver aqui espaço para um retrocesso e um maior controlo dos militares daquilo que são as instituições”, considera a investigadora.

Esta segunda-feira (25), o general Abdelfatah al Burhan, presidente do Conselho Soberano, o mais alto órgão de poder no processo de transição do Sudão, anunciou a dissolução do Governo e o próprio conselho. Ele leu uma declaração na televisão estatal em que anunciou a instauração de um estado de emergência em todo o país.

As Forças Armadas prenderam várias autoridades civis, incluindo o primeiro-ministro, e falaram em “golpe de Estado”, acusando-no de não respeitar esse golpe. Numa declaração, publicada no Facebook pelo Ministério da Informação, o chefe de Governo apelou às pessoas para “se manifestarem” contra o “golpe de Estado”. Pouco depois, o Ministério da Informação anunciou que as forças armadas estavam a disparar contra manifestantes em Cartum.

                                                                                                                                           (Com agências)

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