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Acompanhe a entrevista com a escritora Kiusam Regina de Oliveira

por Redação

Por: Joacles Costa, correspondente do jornal 24 horas no Brasil

Coluna: Kiusam | “A minha pele preta não me define, o racista não me define, as lutas não me definem, as dificuldades não me definem, as vitórias não me definem tampouco as derrotas.”

A escritora Kiusam Regina de Oliveira é nascida em Santo André-SP. Atuou como Professora da Universidade Federal no Espírito Santo – UFES. Possui Mestrado em Psicologia e Doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo, sendo também Especialista em Educação Especial. Educadora há vinte e seis anos, com experiência desde a educação infantil até o ensino superior. Arte-educadora, atuou como orientadora pedagógica do projeto Geração XXI, o primeiro de Ação Afirmativa do país. Assessorou a implementação da Lei 10.639/03 em Diadema, de 2005 a 2016. Em 2010 e 2011, atuou como assessora na Secretaria de Cultura de Diadema nos assuntos da cultura voltada para as questões de gênero e raça, tendo como foco a dança. Em 2010, representou o Brasil no FESMAN – Festival Mundial de Artes Negras –, no Senegal. É Iyalorixá. Foi Integrante da ONG Olhares Cruzados. Kiusam é uma artista multimídia e coreógrafa. Tem palestrado pelo Brasil sobre a temática das relações étnico-raciais, focando em: candomblé e educação; corporeidade afro-brasileira; danças afro-brasileiras e cultura; e Lei 10.639/03 (Que orienta sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana).

Joacles Costa: Quem é a mulher chamada Kiusam?
Kiusam de Oliveira: Sou uma mulher que carrega em si, tantas outras mulheres que reverenciam o sagrado feminino. Kiusam sou eu: Mãe Kiusam de Oxóssi, artista multimídia, bailarina desde a infância, coreógrafa pela inteligência corporal, ativista do Movimento Negro Unificado (MNU) desde jovenzinha, doutora em Educação e Mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), professora por 26 anos, escritora, formadora de professores, terapeuta integrativa. Sou visionária e afirmo que é preciso ter cuidado com pessoas que conseguem deslocar quanticamente, o órgão coração para qualquer outra parte do corpo que for preciso. Sou libriana, ar. Sou filha de Oxóssi, ar. A minha pele preta não me define, o racista não me define, as lutas não me definem, as dificuldades não me definem, as vitórias não me definem tampouco as derrotas. Sou da ordem do mistério ancestral, portanto, o Encantamento é tudo o que pode me definir, mas a partir desse momento que pensam ter uma revelação minha, tudo já está se dando, encantadamente, de outra forma. O ar-pensamento pode me definir. Para resumir, costumo dizer que sou uma pessoa que caminho astutamente carregando o meu coração nos pés.

Joacles Costa: Quais são os livros publicados?
Kiusam de Oliveira: Tenho somente quatro livros publicados e apesar disso, fazem um tremendo barulho no país. São eles: Omo-Oba Histórias de Princesas (MAZZA Edições, 2009), O Mundo no Black Power de Tayó (Editora Peirópolis, 2013), O Mar que Banha a Ilha de Goré (Editora Peirópolis, 2014) e O Black Power de Akin (Editora de Cultura, 2020).

Joacles Costa: Por que decidiu escrever histórias infantis?
Kiusam de Oliveira: Eu não escolhi escrever histórias infantis: as histórias infantis me escolheram, pois escrevo desde meus dois anos e meio, estimulada por minha mãe e minhas histórias sempre se relacionaram ao meu universo: cresci entre crianças e tem sido assim, desde então. Eu vejo, escuto e sinto profundamente as crianças, inclusive as que vivem dentro de mim – a Kiusinha, minha criança interior e o Flechinha Azul, meu erê.

Joacles Costa: Como as crianças reagem quando leem seus livros?
Kiusam de Oliveira: Tenho um público leitor infantil que espera e sugere temas literários. Tenho um grupo de meninos que espera pelo Omo-Oba Histórias de Príncipes e acho isso incrível. Um outro grupo de meninos esperava por uma história com um menino negro protagonista. De qualquer forma, as crianças recebem minhas histórias sempre com o máximo de amor e vejo que cada personagem acaba virando parte das famílias destas crianças.

Joacles Costa: Seus livros, apresentam diferentes temáticas. Resgatar histórias africanas ajuda a empoderar crianças negras?
Kiusam de Oliveira: É incrível, pois todas as histórias que escrevo tem como aspecto central a Ancestralidade que tanto me ensinou desde a minha infância. A Ancestralidade me edifica desde a infância até hoje. Pensar em África como o Berço da Humanidade é central num país racista como o Brasil, pois nos coloca no lugar de entender nossa realeza vivida em solo África o, antes do colonialismo, do roubo, do assalto, do extermínio, da escravidão imposta pelos brancos sobre a humanidade negra em solo africano. Redescobrir essa realeza é uma verdade que todo brasileiro, independente da raça/cor deveria ter a oportunidade de enfrentar, pois o mundo tem muito a ganhar reconhecendo o protagonismo do continente africano em todas as áreas do conhecimento.

Joacles Costa: A criança é capaz de reproduzir o racismo que vê?
Kiusam de Oliveira: Sim, a criança reproduz cotidianamente o racismo que vê no seio de sua família e/ou espaços por onde anda. Martin Luther King já afirmou que ninguém nasce racista e parece clichê falar isso, contudo, é necessário repetir e repetir tal frase uma vez que vivemos num país onde as pessoas insistem em não reconhecer o valor fundamental de uma Educação Antirracista.

Joacles Costa: Por que educar profissionais da Educação faz parte da luta contra o racismo?
Kiusam de Oliveira: Educar profissionais da Educação para uma luta didático-pedagógica Antirracista torna-se fundamental enquanto política pública, compromisso de cada plano gestor de políticos em suas diversas instâncias municipal, estadual e federal. Racismo mata e o faz desde a infância das crianças negras que comprovadamente através de diversas pesquisas acadêmicas desde década de 1980, afirmam que as crianças negras conhecem o racismo quando saem da socialização primária, que se dá no seio da família e vai para a secundária, quando vão para a escola. É fundamental que profissionais da Educação questionem: Por que e como a escola se constitui neste espaço violento para as trocas identitárias? Será que deveríamos pensar no retorno dos estudos sobre o multiculturalismo no país, como apontado na década de 1990? Por que a dificuldade destes profissionais em compreender algo dado e posto de que a população negra é maioria neste país, portanto, enquanto profissionais da Educação pública, trabalhamos para esse povo, o povo brasileiro? Enquanto formadora de profissionais da Educação nos últimos 20 anos o que descobri é que quando a gestão pública oportuniza formação destes profissionais fundamentada no Direitos Humanos e na temática da Educação para as Relações Étnico-raciais ganha em qualidade e premiações em suas redes: o ânimo, a empolgação dos profissionais em perceber um coletivo de estudantes se reconhecendo, se amando, se valorizando não têm preço.

Joacles Costa: A literatura tem permitido que crianças negras sejam valorizadas?
Kiusam de Oliveira: A agitação que tem acontecido no meio da literário infantil vem de nós, autoras negras. A Literatura Negro-brasileira Feminina tem agitado esse cenário e falo, sem medo de ser considerada arrogante que estou fazendo isso brilhantemente. Quando o racista, sempre franco-atirador, mira e atira em meu peito, eu que aprendi com o próprio a me adiantar em seu terreno, já transferi meu coração para outra posição. O branco racista ou antirracista jamais saberá, ao certo, para onde eu transferirei o meu coração, afinal, o território do meu corpo é vasto e, ao contrário do que pensam, é infinito, pois fui treinada eu o treino cotidianamente, em leis universais, energia pura em estado de graça, amor e sabedoria infinita. Eu posso falar pela Literatura Negro-brasileira do Encantamento Infantil e Juvenil (LINEBEIJU) que enquanto pesquisadora e teórica tenho construído esse fragmento dentro das epistemologias negras. Essa Literatura que tenho vivido visceralmente sei, a partir de seus marcadores apontados por mim que sim, são capazes de salvar vidas negras e de forma atemporal, isto é, independente da idade. Minha literatura fala com as pessoas, sensivelmente toca as vidas das pessoas, estrategicamente salva as vidas de crianças, jovens e adultos negros/as, pois é um processo dado de dentro para fora, mergulho protegido pela Ancestralidade Africana que sabiamente, só constrói pontes, une mundos e ritualiza vidas sempre sagradas, com a sabedoria de nós ensinar a criar um contra-corpo necessário para vivermos em sociedades racistas, entendendo a necessidade de apoiarmos a criança a criar e entender seu corpo-templo-resistência, afinal resistir às barbáries, também é sagrado.

Joacles Costa: Como foi sua experiência em visitar o Senegal?
Kiusam de Oliveira: Eu visitei Dakar e a Ilha de Goré. Lá escrevi, assim que cheguei na ilha, a primeira parte do meu premiado livro O Mar que Banha a Ilha de Goré e significou o sonho realizado que dignificou toda a minha trajetória de vida na militância antirracista antes de lá pisar e (res)significou toda a minha jornada de vida. Para certas experiências não existem palavras capazes de traduzi-las: essa é uma delas. Lá, um dia ao amanhecer, fui ao mar me banhar e fazer as minhas rezas costumeiras à Iemanjá. Após 10 minutos de reza, abri os olhos e me vi ao lado de um tubarão que julguei bebê, dormindo. Eu me assustei. Tentei não me desesperar para sair da água e fui, com o coração na boca, me mexendo vagarosamente até que vi seus olhos se abrindo lentamente. Ele me olhou e se assustou comigo e foi quando ele agitou seu corpo mudando a posição dele rumo o fundo do mar: ele, nadou correndo para o fundo do mar e eu, para a beira-mar. O que aprendi com essa vivência? Que o inusitado está à espreita em qualquer lugar e tudo pode acontecer em qualquer fragmento de segundo com quem carrega o Encantado. Repito: o Encantamento é da ordem do mistério e a lógica não tem como aprisionar a natureza encantada. Simples assim.
Título: O BLACK POWER DE AKIN
Autor: Kiusam de Oliveira

A tristeza invadiu o coração de Akin, jovem negro de 12 anos, que cobre a cabeça com um boné ao ir para a escola. Ao seu avô, Dito Pereira, ele não conta que tem vergonha do seu cabelo, motivo de chacota dos colegas. Antes que Akin tome uma atitude brusca, o sábio avô, com a força das histórias da ancestralidade, leva o neto a recuperar a autoestima. Agora confiante, Akin ergue seu cabelo black power e se sente um príncipe. Além do prefácio assinado pelo rapper Emicida, O black power de Akin tem projeto gráfico e ilustrações que incorporam referências da ancestralidade em linguagem contemporânea de arte digital, criados pelo designer Rodrigo Andrade.

Leitura Em Dia:
O que você está lendo no momento? Eu estou lendo o romance histórico de Oswaldo Faustino chamado “A Legião Negra: a luta dos Afro-brasileiras na Revolução Constitucionalista de 1932, da Selo Negro Edições. Incrível!

Revisão de Texto: Max Maciel

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