Início Economia Capital Economics discorda com optimismo de Vera Daves sobre o fim da recessão

Capital Economics discorda com optimismo de Vera Daves sobre o fim da recessão

por Redação

A ministra das Finanças de Angola, em entrevista ao Financial Times (FT), mostrou-se confiante de que a economia angolana, tão dependente do petróleo, vai recuperar após vários anos de recessão

A ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, acredita que este ano de 2021 não será o sexto ano consecutivo de recessão para o país. Francamente optimista, acredita que Angola vai recuperar do duplo golpe: preços baixos do petróleo e pandemia.

Vera Daves de Sousa reconhece que a economia angolana tem vindo a decrescer desde 2016, um valor que situa nos 10%, e adianta – e não é a primeira vez – que o crescimento deste ano será de 0,2%, subindo para 2,4% em 2022, sustentada pelas reformas económicas e pela subida dos preços do petróleo. E por tudo isto, garante, “vamos começar a sair da recessão”. E avança com os números que a deixariam confortáveis, que seria de um crescimento de 4% ao ano, logo, 2,4% é um número magro.

A ministra das Finanças de Angola segue na mesma linha narrativa do Presidente João Lourenço, no sublinhar das reforças económicas,  via para um qualquer milagre que ainda não se vê, mas que um e outro adivinham.

Daves de Sousa disse ao jornal fundado no Reino Unido e que hoje é global, que o governo empreendeu muitas reformas, incluindo a venda de empresas estatais, mas “simplesmente não podíamos fazer mais porque estamos em uma recessão económica agravada por uma pandemia”, que afectou uma economia que vinha em crise há um par de anos.

“Assim como a Venezuela, Angola é uma das economias mais dependentes do petróleo do mundo, com o petróleo sendo responsável por mais de 90% das exportações”, lê-se no jornal, no que vai sendo uma análise muito simplista.

E quanto ao petróleo, eis o que nos diz o Financial Times: “até à queda dos preços do petróleo em 2014, Angola era uma das economias com um crescimento mais rápido de África. Mas a produção nos poços exauridos do país do sudoeste africano, que, de 2015 a 2017, ultrapassou a Nigéria como o maior produtor de petróleo do continente, caiu de 1,9 milhão de barris por dia, em 2008, para quase 1,3 milhão em 2020”, ou seja, a uma crise de mercado, Angola acrescentou uma crise de produção.

“A principal causa da recessão tem sido a dependência do sector petrolífero. Tudo começou quando o preço caiu a pique”, disse Vera Daves de Sousa ao FT a partir do seu gabinete, em Luanda, e acrescentou: “nos últimos 10 anos, não fizemos grandes investimentos em termos de novas descobertas de petróleo. A redução da produção de petróleo também não nos ajuda”, lamentou Vera Daves.

Mas, e “graças à recuperação dos preços do petróleo e a algumas reformas apoiadas pelo FMI, incluindo um compromisso com a disciplina fiscal, o Governo está a atrair investidores estrangeiros para o sector da energia”, que são os novos campos petrolíferos e/ou de gás natural, e tudo isto “num delicado acto de equilíbrio”, para que se possa diversificar a economia angolana em áreas como agricultura e turismo, o que leva tempo, e, ao mesmo tempo, torná-la menos dependente do petróleo, disse a ministra, no que certamente, e também para ela, se afigura numa espécie de quadratura do círculo.

O jornal ouviu também William Jackson, economista-chefe dos mercados emergentes da Capital Economics, que não está tão confiante como a ministra das Finanças angolana, e, de acordo com o seu prognóstico, a economia angolana vai “sofrer o seu sexto ano consecutivo de declínio do PIB” e isto apesar das mudanças de política, porque “é difícil ver muitos novos investimentos numa altura em que o pico da procura do petróleo foi alcançado”.

Com a população angolana a crescer a uma média de 3% ao ano, era necessário que a economia crescesse ao mesmo ritmo, acima dos 3% ano, os tais 4% de que falava a ministra Vera Daves, quando avança com um crescimento de 2,4% para 2022, ano de eleições.

Com o Governo a combater em várias frentes, uma delas é a reestruturação e venda de parte da Sonangol, “que estava atolada em escândalos de corrupção”, lemos no artigo, mas, e como disse o Presidente João Lourenço na entrevista que também concedeu ao FT, não será nem neste nem no próximo ano.

E esta foi uma semana em que o Governo angolano se colocou nas páginas do mundo, via um jornal de prestígio, para falar de um país que não se vê de dentro. (Expansão)

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