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Cientistas admitem que o coronavírus não foi feito em laboratório

por Redação

Uma teoria da conspiração que dificulta o controle da pandemia é a noção de que o coronavírus foi criado em laboratório, seja pelo Bill Gates, pela China e quem sabe por mais quem. No entanto a grande maioria dos pesquisadores estudiosos do vírus consente: o vírus é uma evolução natural e passou para humanos através de um animal, possivelmente um morcego.

Marcelo Ribeiro*

Como temos certeza que o coronavírus (SARS-CoV-2) não foi criado em laboratório, mas teve origem animal? A resposta está no histórico evolutivo do vírus e no conhecimento ecológico destes morcegos.
As doenças vindas dos animais são bastante comuns. Estimativas indicam que 75% das novas doenças e 60% das infeções conhecidas tiveram sua origem em animais. SARS-CoV-2 é apenas o mais recente de sete tipos de coronavírus já observados em humanos e todos vieram de animais, sejam eles ratos, bichos de estimação ou morcegos. O Ebola, raiva e outras três doenças virais conhecidas, tiveram origem em morcegos.

Os sinais de modificações artificiais no vírus

O genoma do SARS-CoV-2 foi sequenciado e compartilhado de maneira aberta milhares de vezes entre cientistas pelo mundo. Se ele tivesse sido engendrado ou modificado por humanos, artificialmente, teriam sido observados sinais no genoma.
Essas modificações mostrariam traços de uma sequência viral que já existe, como a parte principal do novo vírus e elementos genéticos obviamente incluídos ou deletados. Não há nenhum indício dessas modificações e é extremamente pouco provável que qualquer método utilizado para criar geneticamente o vírus não deixe sua marca registada genética, como trechos conhecidos exatos de DNA.
O código genético do SARS-CoV-2 é parecido com o de outros coronavírus em morcegos, pangolins e outros, com a marca registada genética similar. As diferenças entre eles exibem características de evolução natural nesse tipo de vírus. Isso é evidência de que o novo coronavírus é uma mutação de um vírus anterior encontrado na natureza, sua evolução.
Uma das novas diferenças do novo coronavírus em relação a outras variedades é o seu “espinho” de proteína ACE2. Isso permite que ele se conecte a outra proteína em células humanas com facilidade, infectando-as.
Mas outros coronavírus similares têm aspectos parecidos, o que evidencia que essa foi uma evolução natural e não manipulada em laboratório. É assim que funciona a seleção natural entre os vírus e os morcegos: uma corrida em que o vírus evolui para se esquivar da imunidade do morcego; e o morcego que evolui para rechaçar o vírus. O vírus evolui em inúmeras variedades e a maior parte delas não sobrevive ao sistema imune do animal, mas algumas se sobressaem e serão transmitidas a outros morcegos.

O coronavírus pode ter sido criado em um laboratório de Wuhan?

Alguns pesquisadores sugerem que o SARS-CoV-2 poderia ter sua origem em um vírus de morcegos conhecido como RaTG13, identificado por cientistas do Instituto Wuhan de Virologia. Há 96% de similaridade nos genomas dos vírus.
96% pode parecer muito, mas em realidade os torna muito diferentes. Isso indica apenas que eles têm um ancestral em comum. Para colocar as coisas em perspectiva, nós compartilhamos 98% do nosso genoma com chimpanzés e bonobos porque temos um ancestral em comum com estes animais. Portanto o SARS-CoV-2 não veio do RaGT13, eles são apenas primos distantes.
O SARS-CoV-2, na realidade, possivelmente é a evolução de uma variedade de coronavírus que não era capaz de sobreviver por longos períodos em morcegos ou permanecer em níveis baixos no animal.
Por coincidência evoluiu espinhos de proteína muito compatíveis com células humanas e chegou até nós possivelmente por um animal intermediário, encontrando um campo fértil para a proliferação. Talvez tenhamos sido infectados com uma variedade que não prejudica humanos, mas ele evoluiu ao passo que era transmitido entre nós.

Variedades genéticas recombinadas

Uma das maneiras de surgirem novos coronavírus é a recombinação, que consiste na mistura de material genético de genomas diferentes. Foram encontrados indícios desse processo no surgimento do SARS-CoV-2.
Desde o começo da pandemia, o SARS-CoV-2 parece ter passado por uma evolução em duas linhagens diferentes, se adaptando para invadir células humanas de maneira mais eficaz. É possível que o processo tenha ocorrido através de varredura seletiva, um processo natural. Nesse processo as mutações favoráveis contribuem para que o vírus infecte mais hospedeiros, portanto, sendo a variedade mais comum naqueles contaminados. Nesse processo as variações genéticas diminuem nos genomas, pois apenas as mais contagiosas prevalecem.
O mesmo funcionamento pode ser culpado pela pequena variação descoberta nos inúmeros genomas de SARs-CoV-2 que têm sido sequenciados. Isso aponta para o fato de que um ancestral do SARS-CoV-2 de ter ficado por um longo tempo entre populações de morcegos. Depois alcançou as mutações que o levaram a vingar em outros animais até chegar aos humanos.

Origem difícil de rastrear

Há cerca de 1,4 mil espécies de morcegos. Isso é quase 1/5 de todas as espécies mamíferas do planeta. Eles estão por todos os lados e muitos migram por distâncias consideráveis. Por isso é difícil descobrir de qual grupo de morcegos teria se originado o SARS-CoV-2.
Há indícios de que o Covid-19 tenha surgido inicialmente em Wuhan, na China, e não no mercado aberto de animais frescos que fica na cidade. Mas isso não significa que há uma conspiração.
É possível que humanos contaminados estiveram no mercado abarrotado de gente aumentando a possibilidade de contágio. Também é possível que um cientista que estude os coronavírus em morcegos de Wuhan, inadvertidamente, tenha contraído a infecção e contaminado o resto da população. Isso também é uma contaminação natural.
A única certeza é que precisamos empregar o rigor da ciência no estudo da natureza para compreender a origem natural de doenças zoonóticas, como a que estamos a viver. Isso é fundamental porque o nosso aumento do contato com a natureza, junto com as aglomerações de pessoas nas cidades, aumentam o risco de novas doenças fatais para humanos com origens animais. *(In The Conversation)

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